Do ponto de vista das relações bilaterais de Portugal e Espanha, o Norte de Portugal e a Galiza "são das regiões mais activas no domínio da proximidade e cooperação transfronteiriça", elogiou, ontem na sessão de encerramento da 23.ª Assembleia Geral do Eixo Atlântico, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva
A sessão, que se realizou no Teatro Rosalía de Castro, na Corunha, juntou, pela primeira vez, o Presidente da República e os reis de Espanha, Filipe VI e Doña Letícia. Tratou-se da primeira vez que ambos os Chefes de Estado estiveram juntos num acto de uma organização transfronteiriça na Europa já que até ao momento, os encontros entre ambos estavam circunscritos a visitas oficiais de Estado.
Na sessão, Cavaco Silva deixou alguns elogios ao trabalho já realizado pelo Eixo Atlântico. "A Galiza e Norte de Portugal são regiões que apresentam um elevado potencial económico e que constituem, cada vez mais, um espaço privilegiado de cooperação, evidenciando bem a presença e o relevo de interesses comuns no quadro global em que ambos os pais se movimentam".
O Eixo Atlântico, associação transfronteiriça de municípios, integra 38 cidades, tendo como objectivo o desenvolvimento económico, social cultural, científico e tecnológico desta Euroregião e dos municípios urbanos e regiões aderentes. Através desta cooperação, pretende-se também uma aproximação mais tangível e consistente à união europeia, optimizando os apoios comunitários a projectos que contribuam para o progresso e crescimento deste espaço regional.
As infra-estruturas, os transportes, as telecomunicações, a protecção do ambiente, o turismo, os mercados de trabalho, tal como as actividades sociais e culturais, académicas e desportivas são "sectores de interesse" e e de intervenção do Eixo Atlântico.
"Estes domínios de actuação constituem uma rede de cooperação assinalável, cuja acção tem repercussões concretas e visíveis na vida das populações, melhorando o dia a dia dos cidadãos", defendeu o Presidente da República. Cavaco Silva deixou ainda um desafio: "o Eixo Atlântico deve sentir-se encorajado a prosseguir a sua missão, aproveitando o enorme potencial ainda por explorar". Até porque, acrescentou o Chefe de Estado português, o Eixo Atlântico "pode dar um contributo importante na dinâmica de crescimento económico da região".
Projecto de integração europeia "ainda tem muito para dar"
O projecto de integração europeia "tem ainda muito caminho que percorrer e uma imensa projecção", desafiou ontem na Corunha, o rei de Espanha, Filipe VI, desejando uma Europa "social e competitiva, desenvolvida com base na solidariedade" e aqui "Espanha e Portugal são chamados a desempenhar um papel determinante no processo de construção europeia".
Filipe VI, que falava na cerimónia de encerramento da 23.ª Assembleia Geral do Eixo Atlântico, referiu que "o projecto de integração europeia, que trouxe o maior período de paz ao velho continente, tem ainda muito caminho que percorrer e uma imensa projecção".
Para avançar, para alcançar o maior desenvolvimento, para superar as crises, Filipe VI acredita que se deve ser "participante de um grande projecto comum como aquele que a Europa representa, devendo acreditar nos seus objectivos e trabalhar para a sua melhoria contínua".
Para o rei de Espanha, "a união está na base do progresso", considerando que só juntos se consegue a força necessária "num mundo globalizado para defender solidariamente e com eficácia a identidade e para conseguir um futuro de paz e prosperidade para os dois povos". E Filipe VI foi mais longe: "também partilhamos um firme europeísmo que aqui se demonstra com iniciativas, com acções e actos concretos e positivos".
O rei conta ainda "com a juventude mais formada da história recente", da qual precisam "para impulsionar Espanha e Portugal", que é a "maneira mais directa para fazer avançar a Europa". E o rei defendeu "uma Europa social e competitiva, desenvolvida com base na solidariedade, na inovação e no desenvolvimento tecnológico". Ainda no discurso de encerramento da cerimónia, Filipe VI falou de uma Europa que garanta o trabalho, a paz e qualidade de vida aos seus cidadãos. "Essa é a aposta em que todos acreditamos, o objectivo pelo qual juntos vamos continuar a trabalhar e o resultado que, também juntos, vamos conseguir", defendeu.
O monarca não esqueceu que estava numa cerimónia com o chefe de Estado português e usou a língua de Camões para proferir uma parte do discurso, onde recuperou uma ideia defendida em Julho de 2014, quando visitou Portugal pela primeira vez como rei: "pela nossa condição ibérica comum afirmamo-nos e distinguimo-nos do resto da Europa e do mundo". E acrescentou: "os nossos desafios são semelhantes, tal como o é o nosso carácter, a nossa tenacidade e a nossa capacidade de lutar para seguir em frente. Mas, sobretudo, os nossos povos sentem um profundo e recíproco apreço".
Cooperação é "segredo" para desenvolvimento económico
Cooperação é, nas palavras do vice-presidente do Eixo Atlântico, Ricardo Rio, o "segredo" para o desenvolvimento económico. E exemplos disso não faltam. "Os serviços públicos partilhados, as estruturas comuns, a cultura, a segurança dos nossos cidadãos, e sobretudo a inovação e o desenvolvimento tecnológico. Porque aí é onde deve radicar o segredo do nosso desenvolvimento económico", defendeu Ricardo Rio, durante a cerimónia de encerramento da 23.ª Assembleia Geral do Eixo Atlântico, que decorreu na Corunha.
"Somos portugueses, somos espanhóis, e temos orgulho de ser ambas as coisas. Mas já não o somos contra o outro, mas sim como uma continuação do outro", salientou o também presidente da Câmara Municipal de Braga. Ricardo Rio lembrou, por exemplo, que "a Semana Santa de Braga não compete com a de Ferrol. Ambas são festas de interesse turístico, e hoje complementam-se".
O autarca salientou ainda o facto do Bom Jesus de Braga se ter candidatado a património da Humanidade e os galegos subscreveram o pedido através do Eixo Atlântico, da mesma forma que os portugueses subscreveram a candidatura da Ribeira Sacra. "Todos ganhamos com o aumento do número de cidades ou monumentos Património da Humanidade", assegurou.
E Rio foi mais longe: "juntos criámos a primeira Comissaria conjunta de Policia em Tui, para tornar mais eficaz a luta contra a delinquência transfronteiriça. Criámos a primeira Eurocidade com personalidade jurídica em Chaves-Verín".
Mas os projectos comuns não se ficam por aqui. "Coordenamos a protecção civil no Minho através do centro coordenador de emergências de Viana do Castelo, criámos em Braga o Centro Ibérico de Nanotecnologia, uma referência europeia da investigação avançada ao serviço da indústria e da saúde".
Esses são precisamente, nas palavras do autarca, "os novos ícones da cooperação". Por tudo isto, o "trabalho comum" de espanhóis e de portugueses deixa "orgulhosos" todos aqueles que o fizeram ao longo dos últimos 25 anos. E é "para tudo isto" que Ricardo Rio solicitou o apoio da Casa Real Espanhola e da Presidência da República. "Para que dentro de 25 anos quem estiver nos nossos postos possa apresentar a demonstração palpável de que estes 25 anos foram a base para outros 25 de progresso e não tempo perdido num sonho em vão".
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