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As cidades do Atlântico reivindicam o seu protagonismo na reconstrução pós-COVID 19

As cidades do Atlântico reivindicam o seu protagonismo na reconstrução pós-COVID 19

Autarcas da Galiza e do Norte de Portugal defendem que a crise deve ser uma oportunidade para a Euro-região

Na Conferência de Presidentes do Eixo Atlântico, realizada em Pontevedra, foi unânime a reivindicação do papel determinante que as cidades e os municípiosdesempenharam durante a pandemia, cobrindo comos seus próprios recursos os défices de outras administrações desde os aspetos sanitários e sociais de maior urgência incluindo os educativos, atéaos aspetos culturais e de motivação da população para resistir ao confinamento.

Precisamente porque são os municípios os que melhor conhecem as necessidades dos seus cidadãos, reivindicaram um papel protagonista no processo de reconstrução para garantir que o referido processo contemple e apoie as necessidades dos habitantes das cidades da Euro-região.

Ao longo de quase quatro horas os presidentes das principais cidades da Euro-regiãoque fazem parte do Eixo Atlântico, entidade convocante da conferência, debateram com um conjunto de especialistas de alto nível as linhas maestras que devem definir o caminho da reconstrução.

Os responsáveis políticos reivindicaram a situação dos territórios de baixa densidade, que são sempre os mais desprotegidos, não da pandemia, mas dos apoios para superar os seus efeitos. Uma postura defendida pelospresidentes portugueses e galegos, que revelou situações ignoradas como as que está a viver o setor agroalimentar, muito ligado à gastronomia e ao turismo, dado que muitas das grandes superfícies vendem produtos de outras regiões espanholas.

Por isso, uma das reivindicações unânimes foi o apoio aos setores produtivos do território tanto às pequenas e médias empresas como aos independentes.

Neste sentido, o secretário-geral do Eixo Atlântico, Xoán Vázquez Mao, defendeu que as ajudas não podem ir para empresas como a Iberia ou a Vodafone, que não são espanholas e o seu capital não é espanhol,é do Reino Unido, país que abandonou a UE, mas sim para os empresários e independentes portugueses e galegos. “Espanha não deve atuar como um cavalo de Troia para que o dinheiro da UE vápara empresas inglesas, deve sim investi-lo em quem paga aqui os seus impostos e gera riqueza e com isso mantêm a saúde, a educação e a própria administração pública”, afirmou.

O antigo presidente da Xunta de Galicia Fernando González Laxe destacou a importância de reforçar a maritimidade do território como umdos grandes eixos de desenvolvimento económico e em sintonia com o exposto por Carlos Moedas, ex-Comissário Europeu de Investigação, Ciência e Inovação, recordou a importância de incorporar a inovação e investigaçãoneste setor investindo emambosos setores, insistindo na importância da digitalização e no papel relevante que os municípios têm que desempenhar neste processo.

No mesmo sentido, Miguel Poiares Maduro, Diretor do Instituto de Estudos Europeus de Florencia recordou a importância de uma administração ágil e eficaz e a necessidade de que a inovação chegue aos municípios e através das cidades ao seu tecido social e económico.

González Laxe insistiu nos elementos que os municípios devem ter em conta num futuro imediato, como a criação de emprego, as alterações climáticas, “que vão transformar a economia produtiva nos próximos anos”, a conetividade, a qualificação humana e tecnológica, as necessidades sociais e a participação dos cidadãos nas decisões que os afetem.

Outro elemento central do debate foi a necessidade de desenvolver a sustentabilidade do território, não só pelo seu caráter económico e de qualidade de vida, mas, como se viu durante esta pandemia, pelo seu forte componente sanitário, assim como a necessidade de incentivar os ciclos curtos, tanto produtivos como de consumo, que redundam no comércio de proximidade e que valorizem o consumo de produtos tradicionais.A diminuição da poluição que se produziu durante o confinamento foiumefeito muito positivo de prevenção da saúde, especialmente para doenças respiratórias.

Neste sentido enfatizou-se a necessidade de desenvolver planos de mobilidade urbana sustentável para minorar a utilização e impacto do veículo privado, como destacouEmilio Fernández. Também se realçou a necessidade de melhorar as infraestruturas pendentes, especialmente ferroviárias para favorecer uma mobilidade mais sustentável e saudável. Fernández recordou que apesar da queda da contaminação nos meses de confinamento, esta só caiu para níveis similares aos do ano anterior: “evidentemente muito pouco”, frisou.

De realçar também as intervenções de ÁngelCarracedo, Catedrático de Medicina Legal e Maria João Rauch, consultora da OCDE, que apostaram na investigação como chave para sair desta nova crise incidindo na transferência deste conhecimento como elemento indispensável. Também insistiram na necessidade de reter o talento e investi-lo no nosso território.

Xosé Manuel Sánchez Bugallo, presidente de Santiago referiu uma conversa com uma empresa alemã que quer investir em Santiago à qual expôs a elevada capacidade do Campus de Excelencia de la Salud e a investigaçãodesenvolvida no núcleo de biotecnologia e tecnologia biomédica, mas com escassa capacidade de comercialização de patentes e produtos desta investigação. Bugallo explicou como a aposta na investigação pode gerar investimentose converter-se num motor de desenvolvimento económico.

Contudo, o debate centrou-se especialmente nos aspetos económicos destinados a dinamizar a economia e recuperação do emprego no menor tempo possível. Assim Joaquim Oliveira, diretor adjunto do Centro de Empreendimento das Regiõese Cidades da OCDE destacou a digitalização como uma necessidadee uma grande oportunidade para todos, que no caso das empresas se converte numaquestão de sobrevivência.

Por sua vez, Carmen José López, mentora de projetos empreendedores na Escuela de Organización Industrial (EOI) destacou que esta crise nos deixou duas evidências. Por um lado, a capacidade das nossas empresas para ser competitivas; “se há demanda, há competitividade”. E por outro lado, os perigos de uma dependência excessiva de mercados externos. O que também expõe a abertura de uma oportunidade para a aliança das grandes empresas com empreendedores que possam gerar inovação. Insistiu na necessidade de eliminar os entraves burocráticos a empreendedores e independentes e a necessidade de uma administração eficiente que agilize os processos necessários para a criação de empresas.

Para José Palma Andrés, ex-Diretor de Cooperação da Comissão Europeia, “Europa tem uma grande oportunidade e Espanha e Portugal têm muito a ganhar na nova estratégia europeiae conseguir sair do ciclo, que qualificou de “maldito”, de dependência dos Fundos de Coesãoeincentivou a fortalecer e fomentar os centros de competência; isto é os “cluster” setoriais como transportes ou a indústria 4.0, etc.

José Soeiro, ex-presidente do Instituto Financeiro de Desenvolvimento Regional de Portugal, considerou necessária uma nova visão estratégica a curto e médio prazo não só académica, mas com medidas e iniciativas que ampliem a cooperação territorial.

As intervenções que centraram mais o debateforam asde Carlos Moedas pela sua condição de ex-comissário e o seu conhecimento que ofereceu sobre a implementação da inovação, os programas existentes e as políticas da UE nesta áreae o seu impacto na competitividade num momento chave para gerar atividadeeconómica.

José Luis Méndez Romeu explicou que vivemos o que denominou “otimismo informado”, dadas as novas demandas sociais que requerem uma nova relação entre os cidadãos e as suas instituições, coincidindo com a vice-presidente do Eixo epresidente de Lugo, Lara Méndez, no que se impõe a interação das pessoas como espaço público, o que implica o desenvolvimento de novas políticas de mobilidade ambiental e urbana. O ex-secretário de Estado de Cooperação e ex-conselheiro da Presidência da Xunta de Galiciasublinhou a necessidade do trabalho em rede entre instituições e empresas para o intercâmbio de conhecimento, dando como exemplo o trabalho desenvolvido pelo Eixo Atlântico nesta área.

Romeu abordou a necessidade de uma gestão municipal ágil unida a uma nova liderança local, não apenas nas suas competências, mas na capacidade de mobilização de iniciativas, regionais, estatais e, inclusivamente, europeias.

Nas inúmeras intervenções dos presidentesforam propostas medidas concretas para a ativação da cobertura social, como Emídio Sousa, presidente de Santa Maria da Feira ouovereador de relações internacionais da Maia, Paulo Ramalho. Entre os presidentes galegos, Angel Mato de Ferrol referiu Navantia como um exemplo de desenvolvimento industrial baseadona aplicação das novas tecnologias e o seu trabalho nos parques eólicos que está a ser desenvolvido com a Iberdrolae a principal firma francesa, tanto no parque eólico de Viana do Castelo, como no futuro parque eólico de Bretaña.

Vários dos assistentes mencionaram o caráter pioneiro desta conferênciana Europa e felicitaram pelo facto incomum de que numa reunião de presidentes todos defenderam o coletivo e nenhumapresentou questões individuais ou locais.

A vice-presidente do Eixo Atlântico e presidente de Lugo falou do papel fundamental das administrações locais em todas as medidas de choque levadas a cabo, como administração mais perto do cidadão; “queremos ser atores ativos na reconstruçãoe estar presentes na tomada de decisõese o seu financiamento” e concluiu afirmando que “este é o momento de mudança que temos que aproveitar como uma oportunidade de futuro”.

Por seu turno, o presidente do Eixo Atlântico e presidente de Braga destacouo papel de liderança da entidade ao conseguir reunir mais de 30 presidentes para centrar-se, “não numa lista de reivindicações, mas em fortalecer um modelo de cooperação que queremos fortalecer entre municípios, agentes sociais e os cidadãos, além de potenciar os recursos da euro-região para que se desenvolva de forma harmoniosa.

Entre os assistentes estiveram também o Presidente de Consejo Económico y Social de Galicia, Agustín Hernández e o Presidente da Federación gallega de municipios e presidente de Vilagarcía, Alberto Varela.

 pdf DESCARRREGAR PUBLICAÇÃO: Conferência de Presidentes Pós Covid 19. Análises e propostas.

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