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Uma interrogação nas estrelas

Uma interrogação nas estrelas

Artigo de opinião do jornalista do Jornal de Notícias David Pontes sobre o futuro da União Europeia

M&M? Somos impelidos para esta interrogação: Macron ou Marine? Por estes dias, o futuro da União Europeia fixa-se no resultado da segunda volta das eleições presidenciais francesas sabendo que, muito provavelmente, será curto se a candidata da extrema-direita vencer.

É aqui que estamos, sem grande surpresa porque a pergunta já tem vindo a ser feita de diferentes maneiras, nos Estados Unidos ou no Reino Unido, com as respostas confrangedoras que se sabe. E a pergunta é: Como responder aos desafios de um mundo em processo de fusão ou, de forma mais corrente, aos desafios da globalização? De um lado, os que acham que esta crescente interpenetração de economias, culturas, processos de governação é o problema. Do outro, aqueles que acreditam que a globalização é parte da solução, não deixando de ser um problema.

Escrevo sem saber o resultado das eleições francesas, porque a incerteza do momento – mesmo que provavelmente Emmanuel Macron venha a vencer – é a prova da fragilidade que vive o projeto europeu. As dúvidas que se levantam a cada ato eleitoral são sérias, até porque há padrões que se repetem e que nos interpelam.

Cada eleição tem os seus matizes próprios, mas não será só o acaso que dita que as populações que preferencialmente votaram em Trump, no Brexit ou em Le Pen, são as das zonas rurais e industriais, enquanto os habitantes dos polos urbanos escolheram preferencialmente os seus adversários. A globalização fez as suas vítimas e levanta, para muitas pessoas, justificada angústia sobre como nos conseguiremos adaptar a este novo mundo. Continuando abertos, fechando? Nos últimos atos eleitorais, tendencialmente os mais jovens preferem o mundo todo e os mais velhos o regresso a um passado, tantas vezes ilusório, de nações, fronteiras e segurança reforçada.

No coração desta tempestade não poderia deixar de estar o objeto de concertação da União Europeia, a comemorar 60 anos de um sonho de paz para um continente demasiado marcado pela guerra. O sucesso acumulado de décadas, não chega para apagar a dificuldade que tem demonstrado para responder a diferentes crises, nem a fragilidade de instrumentos fundamentais como o euro. E com a sua linguagem incompreensível, a sua imagem de batalhão de burocratas e a dificuldade para estabilizar um modelo de organização política que a torne mais acessível aos cidadãos, a União Europeia torna-se presa fácil para os tabloides e para os políticos soberanistas. Se lhe acrescentarmos o medo provocado pelo terrorismo e pela crise dos refugiados temos o parto perfeito para os populistas.

A resposta que os cidadãos darão em eleições como a de França apresenta-se assim crucial para percebemos se num mundo de grandes potências como os EUA, a China ou a Rússia, de enormes problemas internacionais como as alterações climáticas, os agora 27 conseguirão ficar unidos, criando escala, continuando a fazer sentido.

Os nossos vizinhos continentais do Médio Oriente não vão resolver as suas intricadas questões sozinhos e não há nenhuma indicação que a crise dos refugiados vá esvanecer-se por si. Do outro lado do Atlântico, aquele que era o parceiro firme apresenta hoje um elevado risco para o Mundo devido à gestão errática do seu presidente. E aqui à porta, a Rússia prossegue a sua campanha subterrânea para minar as democracias ocidentais e sua estratégia de “bullying” com países que ainda olham para UE como garantia de paz. Perante isto, perante as ameaças transacionais como as do terrorismo ou da criminalidade organizada, perante os desafios de uma economia globalizada, uma união política como a que temos continua a ter pleno sentido.

Se há muito a fazer na frente externa, outro tanto se passa na frente interna. O Brexit é um desafio para desenrolar nos próximos anos e a tensão entre os países do Norte e do Sul devido à crise das dívidas soberanas e a uma união monetária incompleta passou a sua pior fase, mas nada nos diz que não poderá voltar. Uma economia que vai apresentando resultados titubeantes e uma população cada vez mais envelhecida, com um horizonte de equilíbrio problemático dos sistemas de proteção social, também não são de molde a nos sossegar.

Muitas vezes no passado os líderes europeus, como lembrava recentemente a revista “The Economist”, optaram por ultrapassar as crises aprofundando e reforçando a União. Mas como em nenhum outro tempo no centro da bandeira estrelada há agora um enorme ponto de interrogação, pelo que talvez os tempos que se avizinham aconselhem a União a concentrar-se em fazer bem o que sabe fazer melhor. A afirmar a virtualidade do mercado único e da livre circulação de pessoas e mercadorias. A aprofundar a cooperação no ensino e na ciência. A enfrentar em conjunto os desafios geopolíticos. A afirmar-se como um espaço de paz, de liberdade e de garantia dos direitos cívicos e políticos dos seus cidadãos.

Os tempos são complicados, vai ser preciso fazer mudanças, mas se continuarmos a entender-nos no essencial, a União Europeia, organização determinante para o nosso futuro continental e do Mundo, vai prevalecer.