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Reinventar o presente para termos futuro

Reinventar o presente para termos futuro
Artigo de opinião de José Couto, presidente da Câmara de Comércio Centro de Portugal, sobre a crise do coronavírus

Um vírus que transforma a vida tal como a conhecíamos. Rápido como se esperava num quadro de globalização e justo agora que entramos num paradigma de tecnologia e digitalização. Onde todos somos vizinhos e o “já ali” é uma nova medida de distância. Onde uma pandemia relativizou os tempos da história, tais como outros desastres, e vivemos no presente uma crise que é, para lá de muitas outras coisas, sanitária e económica, mas também que nos põe no futuro, porque nos preocupa o depois – o futuro.

É nisto que estou, nesta proposição básica, onde o vírus me parece culpado de tudo, que nos acantonou e parece tolher o pensamento. Ainda há pouco tempo falávamos em transformação da nossa forma de viver, de smartcities, de novos conceitos de mobilidade e refletíamos sobre novas formas de trabalho, de inovação de i 4.0, da tecnologia altamente intrusiva e da diminuição dos impactos ambientais… de um sei lá de coisas que nos levava para uma nova dimensão… De repente morrem aqui ao lado de casa, aqui ao lado em Espanha, em Itália, por aí, em toda a rua construída pela globalização… Mas há golfinhos em Veneza e não há aviões no ar.

É nisto que estou, mas veio-me ao pensamento as palavras de Wittgenstein: “Não posso subjugar os acontecimentos do mundo à minha vontade: sou completamente impotente”. Pois a impotência do covid-19 é uma catástrofe que nos põe à prova. É uma pandemia que não tem precedentes na era moderna. Uma guerra onde não existem armas nem o típico inimigo.É uma crise de largo espectro, que ataca em várias frentes e que nos porá a discutir também em termos da moral e da ética.

No meio disto está a Europa, a União Europeia, um espaço que tem no seu ADN ser uma solução de paz, contruída para enfrentar crises e guerras. Que tem que se afirmar, que tem que agir e não reagir, que tem que atacar as crises. Que perante a invisibilidade do agressor e vulnerabilidade dos países, da ameaça à destruição da atividade económica e do conceito social que conhecíamos, não pode hesitar em ser solidária. Tem que ser firme para evitar que os países se ponham uns contra os outros e protagonizem um afastamento destruidor da União Europeia. Pôr a Europa em standby é uma ideia destruturada e com consequências incomensuráveis, sobretudo numa crise onde devido à simetria que afeta tudo e todos – os cidadãos da UE – terá consequências assimétricas nos Estados, com o empobrecimento, com a mudança da forma de viver e que pode atingir a democracia.

Então, porque não a partilha de riscos, porque não encetar o caminho da consolidação do projeto europeu, aproveitando o tempo de reflexão a que o vírus nos obrigou, no luto pelos mortos, procurar mostrar a utilidade da UE. Não se trata só de sobreviver, trata-se de cooperar e evoluir.

Os desafios são imensos e de abordagem complexa ao nível das formas de governo político e socioeconómico. Provavelmente o modelo económico, que promove o constante e frenético crescimento, propondo maior complexidade e pressão aos consumidores, terá que ser revisto. Haverá que refletir sobre a coesão económica e social e ter uma abordagem mais integradora dos interesses coletivos, assegurando o valor da democracia.

O caminho não será simples e precisamos de quem o faça, que garanta que outra crise, e neste século vamos na segunda, não nos apanhe numa situação mais frágil ou mesmo de decadência do projeto Europa, de incapacidade para resolver uma dificuldade desta dimensão.

Podemos correr o risco de, por incapacidade, tomar medidas erradas ou ceder aos países mais ricos, permitindo que se tomem medidas isoladas, estar a cavar as diferenças e promover a divergência. Agir antecipadamente e ajudando as empresas muitos países vão proteger o emprego e relançar a atividade económica, antecipando a abordagem competitiva no processo de retoma. Serão as economias mais débeis que terão mais dificuldade de pôr dinheiro nas empresas para garantir a manutenção dos postos de trabalho e do processo produtivo, logo que estejam preparadas para o ciclo pós crise. Se a UE não for sensível a este facto, de os países com viabilidade adotarem políticas internas excecionais de proteção ao desabamento da atividade económica e ao desenvolvimento de um novo ciclo, através de financiamento direto às empresas, estão a promover um aumento de disparidades a destabilizar o mercado interno afetando a concorrência. Então podemos ter um afastamento dos Estados e a estimular novas abordagens políticas e a fomentar o aparecimento de novos “brexits”.

Mais uma vez: é um problema de sobrevivência e temos que ser capazes de resolver esta equação de vários egoísmos e de diferenças multiculturais.