"Os 50 anos do Parque Nacional da Peneda-Gerês"
Artigo de opinião de Luís Braga da Cruz, Engenheiro Civil
Completaram-se 50 anos sobre a criação da primeira área protegida em Portugal, o extenso arco de território, com 69.000 ha, entre o Planalto de Castro Laboreiro (Melgaço) e Tourém (Montalegre). Gostaria de trazer algumas memórias pessoais que esta efeméride convocam.
Quando, em 1991, a CCRN criou, com a Xunta de Galicia, a Comunidade de Trabalho Galiza - Norte de Portugal, ambas as instituições procuram identificar novos domínios para reforçar uma cooperação transfronteiriça pioneira. Contarei dois casos, em que a visão política esclarecida do então presidente da Xunta - D. Manel Fraga Iribarne - foi determinante factor de sucesso.
- Era conhecida a situação inaceitável do nosso único Parque Nacional, em especial na sua zona de protecção total. Era confrontado com um território sem qualquer estatuto, onde a caça era tolerada sem restrições e onde não havia qualquer estratégia de conservação da natureza e de protecção da sua biodiversidade. Propus a D. Manuel que se estudasse a oportunidade de criar esse estatuto do lado galego. Ele achou bem e desencadeou efeitos. A Xunta elaborou um Plano de Ordenamento para a Baixa Limia - Serra do Xurés, que foi objecto de discussão pública antes de ser aprovado pelo Parlamento Galego. Em 1993, foi criado com 20.920 ha, o Parque Natural de Baixa Limia - Xurés. Mais tarde, em Maio de 2009, daria origem ao reconhecimento pela UNESCO, de uma Reserva de Biosfera Transfronteiriça, cuja grande diversidade de habitats e riqueza conjunta de valores naturais justificavam formas de cooperação, para a sua defesa e valorização conjunta.
- Posteriormente, referi ao Presidente da Xunta uma velha ambição portuguesa de reintroduzir no Gerês-Xurez a cabra montesa, cujo último exemplar fora abatido em 1892. Sabia-se que o Presidente Américo Tomás se tinha interessado junto de Franco por essa reintrodução, a partir de exemplares existentes na Serra de Gredos, mas que o pedido fora recusado por se tratar de um recurso cinegético inalienável. Fraga reagiu de uma forma surpreendente: "o assunto tem relevância política" e decidiu tomar providências. Em 1994, trouxe de Gredos alguns casais da capra pyrenaica que foram aclimatados no Parque Natural do Invernadeiro (parque autonómico com 5,720 ha, na Província de Orense, criado em 1989). Visitei esse parque para ver como as cabras estavam a ser monitorizadas, numa área mais penhascosa e cercada, com três centenas de hectares. Depois dessa operação, o passo seguinte foi a transferência de alguns exemplares para a "Finca do Salgueiro", já no parque do Xurés. Fui convidado por Fraga a visitar com ele essa aldeia serrana em cujo território fronteiriço fizeram nova cerca para reter os bichos. O que aconteceu a seguir é conhecido. Num inverno, forte nevada reduziu a altura da cerca e as cabras saltaram-na e dispersaram-se pelo Parque transfronteiriço, ignorando as fronteiras administrativas. Foram avistadas em liberdade na Serra Amarela, em 1999, e também nos Pitões das Júnias, em 2001.
Eis dois exemplos simples que relevam o sentido político de D. Manuel Fraga, amigo de Portugal e crente nas vantagens da cooperação transfronteiriça para melhorar a situação daqueles que as fronteiras foram votando ao isolamento físico e social.