Skip to main content

O porta-chaves de Guilherme Pinto

O porta-chaves de Guilherme Pinto

Artigo de Luís Braga da Cruz, Presidente do Conselho de Fundadores de Serralves, publicado no Jornal de Notícias

Tive a oportunidade de privar com Guilherme Pinto, o suficiente para admirar as suas qualidades políticas e os seus atributos de carácter. Nos últimos dez anos, Serralves teve vários projectos com o Município de Matosinhos, resultantes da preocupação de fazer extensão cultural, disponibilizando a sua colecção para organizar exposições por todo o País e assim promover a expressão contemporânea "fora de portas". Guilherme Pinto apreciava o nosso trabalho e aceitou que fosse estabelecida uma relação de cooperação institucional continuada, sempre correcta e leal.
Hoje, queria homenageá-lo trazendo aqui uma outra história recente. O Eixo Atlântico, como associação de municípios para a cooperação transfronteiriça entre o Norte de Portugal e a Galiza, desafiou-me a preparar um relatório que permitisse o diálogo entre os responsáveis municipais sobre as potencialidades do ciclo de programação dos fundos estruturais europeus, para o período de programação 2014-2020, o Portugal 2020. Para estruturar o debate, o Presidente do Eixo Atlântico - Dr. Ricardo Rio - organizou uma audição entre os autarcas portugueses associados do Eixo, no dia 21 de Abril de 2016. Um dos temas em debate era a proposta de descentralização administrativa que o Governo anunciara. Quando chegou a sua vez, Guilherme Pinto foi, como habitualmente, incisivo e lúcido. Porém surpreendeu-nos quando agitou no ar um porta-chaves que tinha dependurado um disco, tipo mascote pessoal, com um enigmático número de dois algarismos - "57". Explicou que, nesse dia, estava particularmente satisfeito porque, para além de ser o dia do seu aniversário, tinha vencido um trauma psicológico. Segundo explicou, a placa do seu porta-chaves lançara-lhe um espécie de anátema, convencendo-se que o cancro com que lutava não o deixaria completar os 57 anos. Nesse dia, conseguira o que lhe parecia impossível. Quanto ao futuro, logo se veria. Afinal, para nossa mágoa, não resistiu, acabando por nos deixar precocemente. Foi um lutador e foi um homem bom. Quero deixar-lhe aqui a minha singela homenagem pessoal e recordar o seu exemplo de persistência, a sua dedicação à Cultura e a sua devoção às causas nobres, de Matosinhos e do Norte de Portugal. O seu comportamento cívico e a sua atitude perdurarão na memória de todos os que o conheceram.