Crónicas da pandemia
Artigos de análise de Luís Braga da Cruz que referem a evolução em Portugal da epidemia do coronavírus a partir dos dados do boletim diário da Direção-Geral da Saúde
COVID 19 - Considerações a partir dos dados do boletim diário da DGS. Dia 20 de março de 2020
Tenho vindo a registar em tabelas "exel" os resultados dos boletins diários da DGS, para poder interpretar a evolução da epidemia.
O n.º diário de novos casos (a variação diária dos casos confirmados) parece ser um excelente indicador para nos dar informação sobre a tendência da evolução e da forma como está a ser dominada a epidemia em Portugal.
Também é interessante analisar a evolução da desagregação regional destes dados.
Eis algumas conclusões:
- O total nacional cresceu de forma consistente até ao dia 18 de março, a uma taxa média diária superior a 35%. Depois disso, a situação melhorou com variações entre os 22% e os 30%. Do dia 14 até 22, a taxa média de variação diária é de cerca de 32,5%.
- O número de internamentos em cuidados intensivos (41, hoje, 22 de Março) tem crescido a um ritmo de 30% ao dia. Se esta variação, podemos chegar a cerca de 450 casos no final deste mês, cerca de metade da capacidade hoje disponível. Mas é de esperar que, por efeito das medidas tomadas, a variação deste indicador também diminua a um ritmo menor.
- Outro indicador que pode ser significativo é o n.º dos casos suspeitos, dado antecipar os casos confirmados. Em termos absolutos, é cerca de sete vezes superior aos confirmados. A evolução da variação é da ordem dos 27,5%, mesmo assim, inferior à evolução dos casos confirmados (entre 32,5% e 35%).
- Em termos regionais (por NUT II) a evolução da percentagem do total de casos confirmados (em relação ao total do País) e comparada com a população, é a seguinte:
Desagregação Regional dos casos confirmados (por NUT II)
|
NUT II |
Popul. |
% |
15.03 |
% |
20.03 |
% |
22.03 |
% |
|
Norte |
3690 |
34,9% |
103 |
44,0% |
506 |
50,3% |
825 |
52,2% |
|
Centro |
2328 |
22,0% |
10 |
4,3% |
106 |
10,5% |
180 |
11,4% |
|
Lisboa |
2822 |
26,7% |
116 |
49,6% |
364 |
36,2% |
534 |
33,8% |
|
Alentejo |
757 |
7,2% |
0 |
0,0% |
5 |
0,5% |
5 |
0,3% |
|
Algarve |
451 |
4,3% |
5 |
2,1% |
25 |
2,5% |
25 |
1,6% |
|
Açores |
245 |
2,3% |
1 |
0,4% |
3 |
0,3% |
4 |
0,3% |
|
Madeira |
268 |
2,5% |
0 |
0,0% |
1 |
0,1% |
7 |
0,4% |
|
Total |
10561 |
100,0% |
235 |
100,4% |
1010 |
100,4% |
1580 |
100,0% |
Cruzando a população com as incidências regionais, nota-se que:
- O Norte e Lisboa têm maior percentagem de casos confirmados do que a da sua população.
- O Norte foi a região mais exposta à incubação do vírus e com maiores crescimentos.
- No Centro os valores são mais reduzidos, talvez por menor exposição à contaminação externa.
- No Algarve, felizmente, verifica-se uma tendência para a estabilização.
- No resto do País a incidência é muito mais reduzida.
Em relação às variações diárias de novos casos confirmados, pode dizer-se que:
- Região Norte - até ao dia 18 de Março, se verificavam crescimentos diários entre 34% e 47%, passando depois disso para valores entre 27% e 33%.
- Região Centro - Crescimentos médios de 30%.
- Região de Lisboa - Crescimentos médios de 25%.
- Algarve - Crescimentos médios de 20%.
Conclusões:
A maior incidência continua a verificar-se no Norte.
Em termos gerais, ainda estamos longe dos crescimentos diários de 10%, que antecipam o desejável achatamento da curva.
Em países com evoluções similares, os efeitos das medidas de excepção, como as que foram tomadas em Portugal, só começaram a fazer-se sentir algumas semanas depois. temos que aguardar com paciência e esperança.
Faz todo o sentido continuar a manter rigoroso resguardo de contacto social e não descurar os cuidados sanitários.
COVID 19 - Considerações a partir dos dados do boletim diário da DGS. Dia 25 de Março de 2020
Na sequência da minha nota anterior (reportada a 20.03.2020) venho actualizar alguma reflexão, sobre a evolução dos últimos 5 dias.
Continuo a adoptar como indicador de análise dominante o n.º diário de novos casos (a variação diária dos casos confirmados) para compreender a evolução e a previsão futura.
Acrescento a evolução regional destes dados.
Eis algumas conclusões:
- O total nacional (que hoje estava nos 2.995) cresceu, neste período, a uma taxa média diária de 24%, claramente inferior ao crescimento no período anterior (35%). A este ritmo, no final do mês estaremos nos 10.870. Admito que o crescimento pode começar a ser mais moderado.
- O número de internamentos em cuidados intensivos (61, hoje, 25 de Março) cresceu de forma mais suave (19%). Pode ficar a dever-se ao programa definido pela DGS e Governo, que quer reservar esta solução apenas para os doentes em estado crítico. Sendo a variação mais moderada, podemos chegar ao fim do mês com valores inferiores à previsão anterior. A projecção aponta para valores entre 170 a 200 casos. Pelo que ouvi, o dispositivo está a dotar-se de mais de 1.000 camas equipadas. Parece ser de admitir que tudo estará preparado para o "pico" que deve ocorrer por volta de meados de Abril, segundo a DGS.
- Outro indicador que pode ser significativo é o n.º dos casos suspeitos, , dado antecipar os casos confirmados, independentemente da polémica dos testes. Em termos absolutos, mantem-se sete vezes superior aos confirmados. Quanto à variação diária, caiu de 27,5% para 22,5%, o que pode ser bom sinal.
- Em termos regionais (por NUT II) a evolução da percentagem do total de casos confirmados (em relação ao total do País) e comparada com a população, é a seguinte:
Desagregação Regional dos casos confirmados (por NUT II)
|
NUT II |
Popul. |
% |
15.03 |
% |
20.03 |
% |
25.03 |
% |
cresc.(*) |
|
Norte |
3690 |
34,9% |
103 |
43,8% |
506 |
50,1% |
1517 |
50,9% |
24,5% |
|
Centro |
2328 |
22,0% |
10 |
4,3% |
106 |
10,5% |
365 |
12,2% |
29,0% |
|
Lisboa |
2822 |
26,7% |
116 |
49,4% |
364 |
36,0% |
992 |
33,3% |
23,6% |
|
Alentejo |
757 |
7,2% |
0 |
0,0% |
5 |
0,5% |
12 |
0,4% |
30,0% |
|
Algarve |
451 |
4,3% |
5 |
2,1% |
25 |
2,5% |
62 |
2,1% |
12,5% |
|
Açores |
245 |
2,3% |
1 |
0,4% |
3 |
0,3% |
17 |
0,6% |
|
|
Madeira |
268 |
2,5% |
0 |
0,0% |
1 |
0,1% |
16 |
0,5% |
|
|
Total |
10561 |
100,0% |
235 |
100,0% |
1010 |
100,0% |
2981 |
100,0% |
24,0% |
|
(*) Crescimento médio diário de casos confirmados, por região, nos últimos 5 dias |
|||||||||
Cruzando a população com as incidências regionais, nota-se que, nos últimos 5 dias:
- O Norte e Lisboa continuam a ter maior % de casos confirmados do que a % da sua população.
- O Norte continua a ser a região mais infectada, mantendo cerca de 50% dos casos do País. O crescimento médio diário foi de 24,5%, um pouco acima do crescimento médio nacional (24%).
- No Centro, a incidência continua baixa em relação à sua população. O crescimento médio foi de 28%, o que revela que a região está numa fase mais atrasada da curva.
- Em Lisboa, a incidência continua a diminuir e a aproximar-se da % da sua população. O crescimento médio diário caiu 5 pontos percentuais (de 29% para 24%) o que em si é também um sinal positivo.
- No Algarve, continua a verificar-se uma tendência para a estabilização (o crescimento médio diário foi de 12,5%).
- No resto do País a incidência continua a ser muito reduzida.
Seria interessante comparar este cenário com o de 20 estados-membros da UE, onde as "coisas" começaram antes. Valho-me de informação da OMS, relativa à evolução entre 15.03 e 22.03 (um período de 7 dias...) distinto daquele que utilizei antes. Dessa análise, colhi os seguintes conclusões:
- Que os comportamentos e a incidência são diversos de país para país. Há países em que a situação está mais controlada do que noutros. Temos de reconhecer que a maturidade, isto é, a posição relativa de cada País na curva epidemiológica típica, também é muito distinta.
Limitando-me a comparar as variações médias de casos confirmados, em 7 dias, posso agrupar os países nos seguintes intervalos:
- Crescimentos entre 5% e 7,5% - Dinamarca e Eslovénia
- Crescimentos entre 7,5% e 10% - Suécia e Grécia
- Crescimentos entre 10% e 12,5% - Noruega
- Crescimentos entre 12,5% e 15% - Itália, Áustria e Finlândia
- Crescimentos entre 15% e 17,5% - França
- Crescimentos entre 17,5% e 20% - Espanha, Suíça, Rep. Checa, Reino Unido
- Crescimentos entre 20% e 22,5% - Bélgica
- Crescimentos entre 22,5% e 25% - Alemanha
- Crescimentos entre 25% e 27,5% - Irlanda
- Crescimentos entre 27,5% e 30% - Portugal
- Crescimentos acima de 50% - Luxemburgo
- É de notar que este retrato não tem em conta o momento inicial da evolução em cada país, dado que a epidemia se manifestou em momentos diferentes.
- Também não diferencia a forma com evoluiu o crescimento da curva em cada país.
Enviei a nota anterior a um conjunto alargado de amigos. Quero agradecer as reacções, recordando que só através de informação podemos compreender o que se está a passar e prever a evolução futura.
Dos comentários recebidos, pela sua oportunidade, permito-me referir-vos, com devida vénia, as reflexões do António Correia de Campos. Ele chama a atenção para o seguinte:
- Número de casos: depende não só da contaminação, o tal R, número de contagiados por infectante, que tem que baixar para menos de R1; depende também da capacidade instalada para diagnóstico, neste caso para testes. Se aumentarem os testes é provável que aumente o número de infectados, mas também será maior o número dos assintomáticos. Do ponto de vista estatístico, melhor e mais rápido diagnóstico fará baixar a taxa de letalidade, ou seja os óbitos entre os reconhecidos como infectados.
- Número de mortes. Depende muito da maturação da doença, os óbitos quase nunca ocorrem nos primeiros dias mas sim ao fim de três semanas de hospitalização.
- Grande preocupação: lares, cuidados continuados e residências não legalizadas ou em excesso de lotação de idosos. Locais onde a higiene é baixa, a infeção bacteriana é normalmente elevada, onde escasseiam cuidados profissionais.
- Testes: o DG da OMS veio recomendar a todos os países a forma sul-coreana de testes, testes, testes. Não sei se foi uma boa recomendação. Se os testes, sejam serológicos, sejam por RNA, usando os equipamentos de "Polimerase Chain Reaction" (PCR), necessitam de calibração ou padronização. Só o Ricardo Jorge o deve fazer. A existência de falsos positivos causa alarme, a existência de falsos negativos podem reduzir os mecanismos epidemiológicos de defesa. Entretanto, há já laboratórios privados a realizarem-nas. Mas de acordo com os padrões do INSA.
Conclusões:
De uma forma geral, pode dizer-se que Portugal ainda está no início de um longo processo evolutivo. Começo a admitir que não vamos conseguir passar dos 24% para os 10%, no final deste mês, como alguns desejavam.
Que, tendo sido tomadas as medidas drásticas de restrição de contactos, cujos efeitos começam a fazer-se sentir, é muito provável que o abrandamento se manifeste de forma progressiva.
Não tenho a competência do ACC, pelo que apenas deixo os comentários dele, tal como so produziu. Mas acho que só há um remédio - manter a esperança, continuar em resguardo e seguir os cuidados sanitários que a Autoridade de Saúde está a recomendar.
Alguém recordava há dias que os assintomáticos podem ser entre 10 a 20 vezes os identificados e os que tiverem sido contagiados ficarão imunes com alta probabilidade.
Pessoalmente, só posso elogiar a forma como a epidemia está a ser gerida, o estoicismo dos profissionais de saúde e serenidade da Sr.ª Directora-geral.
Aceito os vossos comentários.
COVID 19 - Considerações a partir dos dados do boletim diário da DGS
Luís Braga da Cruz (dia 3 de Abril de 2020)
Introdução e panorama global
Na sequência das notas anteriores (a última de 25.03.2020) aqui está alguma actualização, relativa à evolução entre 25.03 e 31.03. Assim é possível avaliar o que se verificou nos primeiros dias de Abril, que indicia uma inversão na evolução anterior.
Dizem os especialistas que o importante é alisar a curva da evolução dos casos confirmados. A 28.03 os jornais diziam que, para Itália, a curva poderia apresentar mais do que um "pico", por a curva do País ser a integração de evoluções muito distintas, de região para região. No caso italiano, as manifestações mais intensivas começaram na parte superior - Lombardia, Veneto, Piemonte, Emília-Romanha - justamente a mais rica e mais bem dotada, estando agora a migrar para o centro e sul (o medio giorno), onde a pobreza relativa é maior. O foco de expansão em Itália poderá ter a sua origem nos 200.000 chineses que trabalham no sector têxtil, no Norte de Itália, e o importaram.
Também em Portugal a evolução é muito distinta nas três regiões mais populosas, dado que N, C e LVT, representando 83,6% da população, detêm 96,4% dos casos confirmados. Em Portugal, pode verificar-se uma evolução do mesmo tipo, embora com muito menor intensidade relativa. Começa a ser claro que a evolução mais favorável entre nós, por ter conseguido descer os máximos absolutos, terá como contrapartida uma curva com um patamar mais alongada no tempo. Isto pode ser muito positivo, para não pôr em causa a capacidade de resposta do SNS, mas retardará a retoma da normalidade.
O Financial Times on line edita uma "Coronavirus Business Update newsletter" muito curiosa que vale a pena ser seguida[1]. Compara as trajetórias das curvas dos mortos por país e por região, sobrepostas com a origem das abcissas nos 10 mortos. Também mostra idêntica evolução para os casos confirmados, sobrepostas com a origem das abcissas nos 100 casos.
Esta sobreposição de curvas permite compreender o sucesso de algumas opções, nomeadamente o uso massivo de máscara de protecção nos países orientais. Este sucesso pode ser uma boa indicação para a fase de regressão, na qual entraremos brevemente.
Perpectiva a uma outra escala é a seguinte:

Verifica-se que as evoluções obedecem a padrões muito distintos, função da população do agregado analisado, mas também da política seguida. O caso mais bem sucedido foi a KS. O êxito é atribuído à realização massiva de testes e ao acompanhamento dos casos rastreados. No caso do Japão, o bom resultado é atribuído ao uso massivo das máscaras e por ter havido obediência estrita às normas sociais adoptadas.
Casos mais desgovernados:
- Turquia, crescimento irregular, embora ainda com poucos dias de evolução.
- USA - o record absoluto de casos, espalhados por todo o território, com alguns estados menos controlados (casos da Califórnia, Florida, Washington Seattle, Michigan, Massachusetts, Louisiana). O n.º total ultrapassava os 133.000 (29.03), em apenas 23 dias.
- A Itália chegou aos 100.000, em 35 dias, ainda com uma variação superior a 10%.
Outro indicador interessante que o FT apresenta e ó impacto da pandemia na economia chinesa . Tomando como origem o dia 1 de Janeiro, em 15 de Fevereiro, a dinâmica económica quebrara cerca de 50%. Entre esta data e o final de Março, recuperou 15%!
A 30.03 ficámos a saber que vários laboratórios a nível mundial estão em competição para ver disponibilizar uma vacinas. Trabalhando com os critérios habituais, a J&J promete uma vacina no princípio de 2021. Outros estão nessa corrida, tais como a Pfizer e a GSK. A Moderna (Boston) afirma que pode estar em condições de anunciar resultados em meados de Maio! O regulador americano para os medicamentos promete uma "via verde" para certificar os novos fármacos, em tempo record. Mas tem de ser garantida a maior segurança, para os humanos. Discutem-se as condições de acesso generalizado à inovação, para evitar que o lucro seja o único motor deste progresso científico. Cada processo de investigação pode envolver custos superiores a 1 bn dollars.
Também os testes muito mais rápidos e expeditos, em apenas alguns minutos e com equipamentos de análise portáteis, se anunciam para muito breve (Abbot). Esta inovação abre a expectativa de abrandar as medidas generalizadas de contenção.
Estas duas inovações podem ter um grande impacto económico, por contribuírem para a retoma da actividade social e económica.
Outro matéria que está a impulsionar avanço tecnológico e o aumento da capacidade para superar o défice dos medichal devices diz respeito à produção dos ventiladores. Só o Estado de Nova York diz precisar de 30.000 máquinas extras. grandes empresas industriais - General Motors, Airbus, McLaren and Dyson - ofereceram a sua capacidade de engenharia e linhas de produção para entrar nesta produção.
Entretanto na Europa, a Volkswagen criou uma task force, recorrendo aos seus equipamentos de impressão 3D, que podem produzir rapidamente componentes com formas complexas. Em Portugal, em Matosinhos, o CEIIA recebeu há dias o PM para mostrar como pode fazer idêntico esforço. Os custos associados aos ventiladores podem ascender a cerca de 20.000€ por unidade, com tempos de produção de alguns meses.
O número de camas em UCI (unidades de cuidados intensivos) por 100.000 habitantes é muito diversa em cada país: Alemanha - 30; Itália - 12,5; média UE - 12,3; França - 12,3; Espanha - 9,1; UK - 6,6; Portugal - 4 (embora tenham sido feitas encomendas para chegar a 10). O que é crítico? Conciliar a sua evolução específica e a capacidade de resposta para as situações de "pico" ou de patamar muito prolongado.
Também a capacidade de realizar testes pode ser muito aumentada, por recurso á capacidade instalada em laboratórios de investigação, que vão do IMM (Instituto de Medicina Molecular) da Dr.ª Maria Manuel Mota, aos centros clínicos académicos, como o de Braga (parceria entre a Escola de Medicina da Universidade do Minho e o Hospital de Braga). O que é importante é que estejam disponíveis em todo o país, para garantir proximidade.
O que se passa lá fora, revela situações muitos dispares. Há países onde as medidas cautelares podem impedir a progressão exponencial. Noutros, em especial na América Latina, há casos completamente fora de controle. Preocupante é a situação em grandes países onde a política central foi menos esclarecida - caso do Brasil, do México e, porque não dizê-lo, nos USA. Nos USA, cada estado federado procura resolver os seus problemas, por si. Assim acontece com os ventiladores e com os hospitais de campanha.
Evolução em Portugal
Entre 25.03 e 31.03, o número de casos confirmados continuaram a crescer de uma forma muito elevada:
Como evoluíram, em termos médios, os diversos indicadores que a DGS contabiliza diariamente?
- Casos Confirmados: entre 15% e 17,5%
- Óbitos: entre 22,5% e 25%
- Casos Suspeitos: entre 15% e 17,5%
- Em Unidades de Cuidados intensivos entre 20% e 22,5%
Acrescento a evolução regional dos Casos Confirmados:
- Norte entre 17,5% e 20%
- Centro entre 15% e 17,5%
- LVT entre 10% e 12,5%
- Alentejo entre 25% e 27,5%
- Algarve entre 12,5% e 15%
Noto que a evolução diária, neste período, oscilou com irregularidade, havendo dias em que a variação ultrapassou o intervalo que se indica.
Eis algumas conclusões:
- O total nacional (que em 03.Abril estava nos 7.443) cresceu, neste período, a uma taxa média diária de 16,1%, claramente inferior ao crescimento nos períodos anteriores (24% e 35%). Nos primeiros 3 das de Abril, essa tendência acentuou-se, ficando-se agora pelos 9,5%. A este ritmo, a meados de Abril podemos ter entrado em patamar, isto é, sem crescimentos.
- Fazendo um exercício arriscado, mas apesar de tudo de legítima prospectiva, podemos compreender a próxima evolução e assim antecipar a que nível poderemos estabilizar. Adoptando dois cenários de crescimentos médios decrescentes, para os próximos períodos de 5 dias, a partir dos valores reais em 3.04, podemos chegar a valores entre 20.000 e 35.000 casos de infectados em 20.04.
|
Exercício de Prospectiva |
||||
|
período |
% |
casos |
% |
casos |
|
1.04 /5.04 |
7,5% |
10 685 |
10,0% |
11 987 |
|
6.04/10.04 |
7,5% |
15 340 |
10,0% |
19 305 |
|
11.04/15.04 |
5,0% |
19 578 |
7,5% |
27 715 |
|
16.04/20.04 |
2,5% |
22 692 |
5,0% |
35 372 |
Estes cálculos valem o que valem, mas dão uma ideia do que pode ser a nossa situação quando começarmos a estabilizar. Mas pode ser útil para ver quanto é importante actuar agora para tentar moderar o processo de crescimento futuro.
Quanto às estimativas do n.º de óbitos e de doentes em UCI, a operação é ainda mais arriscada. As respectivas curvas não são homotéticas da curva dos confirmados e acusam algum atraso temporal. O caso espanhol ensina que os que morrem hoje, terão sido infectados há 15, 20 ou 30 dias[2]. O melhor é aplicar uma taxa percentual sobre os números dos confirmados. A taxa de óbitos (246, hoje reportados) relação aos confirmados, tem vindo a aumentar progressivamente - foi de 1,7% (em 26.03), 2,1% (em 31.03) e de 2,5% (em 3.04) - podendo subir mais ainda, apesar do ritmo dos confirmados começar a reduzir. Aplicando 2,5% sobre aqueles valores prospectivos, podemos chegar a um número de óbitos entre 550 e 900, no dia 20.04.
Um cálculo semelhante para os doentes carecidos de UCI, dá as taxas seguintes - 1,7% (em 26.03), 2,5% (em 31.03) e de 2,5% (em 3.04), não havendo razões para prever uma incidência superior. Aplicando 2,5% sobre aqueles valores prospectivos, podemos chegar a um intervalo da mesma ordem de grandeza. Se assim for, ainda ficamos abaixo da capacidade máxima prevista para o dispositivo se saúde o qual, entretanto, também sofrer ajustamentos.
Resta a questão da distribuição regional da epidemia:
Em termos regionais (por NUT II) a evolução da percentagem do total de casos confirmados (em relação ao total do País) e comparada com a respectiva população, é a seguinte:
|
NUT II |
Popul. |
% |
15.03 |
% |
31.03 |
% |
03.04 |
% |
cresc.(*) |
cresc.(**) |
|
Norte |
3 690 |
34,9% |
103 |
43,8% |
4 452 |
59,8% |
5 899 |
59,7% |
19,6% |
9,1% |
|
Centro |
2 328 |
22,0% |
10 |
4,3% |
911 |
12,2% |
1 286 |
13,0% |
16,4% |
12,2% |
|
LVT |
2 822 |
26,7% |
116 |
49,4% |
1 799 |
24,2% |
2 347 |
23,7% |
10,4% |
9,3% |
|
Alentejo |
757 |
7,2% |
0 |
0,0% |
50 |
0,7% |
62 |
0,6% |
26,7% |
7,5% |
|
Algarve |
451 |
4,3% |
5 |
2,1% |
137 |
1,8% |
179 |
1,8% |
14,1% |
9,4% |
|
Açores |
245 |
2,3% |
1 |
0,4% |
48 |
0,6% |
63 |
0,6% |
|
|
|
Madeira |
268 |
2,5% |
0 |
0,0% |
46 |
0,6% |
50 |
0,5% |
|
|
|
Total |
10 561 |
100,0% |
235 |
100,0% |
7 443 |
100,0% |
9 886 |
100,0% |
16,1% |
9,6% |
(*) Crescimento médio diário de casos confirmados, por região, de 25.03 a 31.03
(**) Crescimento médio diário de casos confirmados, por região, de 31.03 a 3.04
Nas 2 últimas colunas registam-se os crescimentos médios nestes 2 períodos. É interessante ver a redução acentuada dos novos casos (variações) em todas as regiões. Portugal, nos últimos 3 dias, já teve variações inferiores a 10%. Tanto o Norte como LVT tendem a estabilizar. O Centro revela um ligeiro atraso no desenvolvimento do pandemia. No resto do país a situação não é tão preocupante (3,5% dos casos, para 16,3% população portuguesa).
Prometo fazer um novo ponto de situação para meados de Abril.
[1] https://www.ft.com/coronavirus-latest
[2] "El País", 1 de Abril de 2020.
COVID 19 - Considerações a partir dos dados do boletim diário da DGS e de outras fontes
Luís Braga da Cruz (dia 26 de Abril de 2020)
Sob o tema geral "COVID 19 - Como sair da Crise", posso anunciar que o Concelho Económico e Social (CES) vai organizar um ciclo de 4 conferências, em formato Webinar , em Maio e Junho, respectivamente sobre: Saúde, Emprego e Apoio Social, Retoma da Economia, Análise Territorial. O Presidente - António Correia de Campos - convidou-me para a coordenação da 4.ª conferência, que se realizará a 17.06.2020, entre as 15h00 e as 18h00. A 1.ª, sobre a "Saúde - o SNS e a vigilância epidemiológica no final da 1.ª vaga", será já em 13.05.2020. Para mais informação recomendo que deem uma olhadela no site do CES.
Desde o início deste processo foi importante analisar a evolução da curva de novos casos confirmados e comparar a evolução portuguesa com a evolução de outros países. No início, os crescimentos eram exponenciais, em todos os países. As taxas de crescimento diárias eram muito elevadas - em Portugal, até 18.03, foi superior a 35%.
As evoluções foram diferentes de país para país, com manifestações mais evidentes em universos de maior dimensão - países grandes.
Portugal terá aprendido com a experiência dos outros. O confinamento, para evitar a expansão descontrolada, foi positivo. Há um mês, aspirávamos a que as variações diárias - os novos casos - baixassem para menos de 10%, o que aconteceu, em termos médios nos primeiros 5 dias de Abril.
O quadro seguinte mostra como evoluiu o crescimento médio diário, em períodos de 5 dias, tanto em termos nacionais como regionais.
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Quadro I - Crescimento médio diário dos Casos Confirmados (períodos de 5 dias, por NUT II) |
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NUT II |
cresc.(*) |
cresc.(1*) |
cresc.(2*) |
cresc.(3*) |
cresc.(4*) |
cresc.(5*) |
cresc.(6*) |
|
Norte |
24,5% |
19,6% |
7,9% |
6,4% |
7,9% |
3,1% |
2,3% |
|
Centro |
29,0% |
16,4% |
12,2% |
8,3% |
3,9% |
3,3% |
1,5% |
|
Lisboa |
23,6% |
10,4% |
9,3% |
5,6% |
1,3% |
2,8% |
2,3% |
|
Alentejo |
30,0% |
26,7% |
7,5% |
8,3% |
4,4% |
0,8% |
2,8% |
|
Algarve |
12,5% |
14,1% |
9,4% |
6,8% |
1,2% |
1,2% |
0,8% |
|
Total |
24,0% |
16,1% |
8,9% |
7,3% |
3,2% |
2,9% |
2,3% |
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(*) Entre 21.03 e 25.03 , (1*) Entre 26.03 e 31.03, (2*) Entre 1.04 e 5.04, |
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(3*) Entre 6.04 e 10.04, (4*) Entre 11.04 e 15.04, (5*) Entre 16.04 e 20.04, (6*) Entre 21.04 e 25.04. |
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Este quadro pode ser confrontado com as disparidades regionais e com a população relativa de cada NUT II, do Continente (Quadro 2):
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Quadro 2 - Desagregação Regional (por NUT II) |
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NUT II |
Popul. |
% |
15.03 |
% |
05.04 |
% |
15.04 |
% |
25.04 |
% |
|
Norte |
3 690 |
34,9% |
103 |
43,8% |
6 530 |
57,9% |
10 751 |
59,4% |
14 072 |
60,2% |
|
Centro |
2 328 |
22,0% |
10 |
4,3% |
1 442 |
12,8% |
2 629 |
14,5% |
3 183 |
13,6% |
|
LVT |
2 822 |
26,7% |
116 |
49,4% |
2 904 |
25,7% |
4 102 |
22,7% |
5 435 |
23,2% |
|
Alentejo |
757 |
7,2% |
0 |
0,0% |
82 |
0,7% |
155 |
0,9% |
185 |
0,8% |
|
Algarve |
451 |
4,3% |
5 |
2,1% |
201 |
1,8% |
295 |
1,6% |
320 |
1,4% |
|
Açores |
245 |
2,3% |
1 |
0,4% |
67 |
0,6% |
100 |
0,6% |
111 |
0,5% |
|
Madeira |
268 |
2,5% |
0 |
0,0% |
52 |
0,5% |
59 |
0,3% |
86 |
0,4% |
|
Total |
10 561 |
100,0% |
235 |
100,0% |
11 278 |
151,5% |
18 091 |
100,0% |
23 392 |
100,0% |
Desta informação podem extrair-se alguns comentários interessantes:
- Em cerca de um mês, conseguimos uma redução dos casos confirmados assinalável, tanto a nível nacional como regional.
- O fenómeno afectou diferentemente o território nacional. Manifestou-se primeiro em LVT, depois no Norte, seguindo-se o Centro.
- Estas 3 regiões - Norte, LVT e Centro - representam de forma consistente 96,9% dos casos em Portugal, correspondendo-lhe 83,6% da população portuguesa.
- O resto do País - Alentejo, Algarve, Açores e Madeira - acusam 3,1% dos casos para 16,3% da população.
- A incidência mais anómala foi a verificada na região Norte com 60,2% dos casos e 34,9% da população, o que ainda não foi suficientemente explicado.
- O controle da epidemia revela-se mais complexo nas regiões de maior população.
Traduzindo no gráfico abaixo os números de novos casos diários confirmados (série azul), podemos verificar alguma irregularidade na evolução dessa curva.
Para atenuar as pontas extraordinárias, que têm relação com a forma como a população foi testada, combinei esta curva com uma curva de médias móveis de 3 dias (série grená). Tomando como origem do tempo o dia 13.03, em que se registaram mais de 100 casos, Podemos dizer que o "pico" dos confirmados terá ocorrido 4 semanas depois (cerca de 10 de Abril). Estas curvas mostram como foi eficaz o confinamento obrigatório, a partir do início de Abril, mas que, depois disso, a redução tem sido lenta e demorada, podendo subir de novo se não houver cuidado.
Em toda esta evolução há que analisar dois tipos de curvas: as curvas de valores acumulados e as curvas de novos casos, que traduz as variações da 1.ª curva, a inclinação dessa curva (afinal a sua 1.ª derivada).
Todas as curvas de valores acumulados (sejam de casos confirmados, Suspeitos, óbitos, UCI, Recuperados) são curvas em "S" (com três fases: crescimentos lentos no princípio, grandes crescimentos depois, redução a seguir convergindo para patamar horizontal - a assíntota da curva).
A representação mais popular deste tipo de curva é a que o Financial Times (FT) adoptou e que já apresentei na minha nota anterior. O FT optou por apresentar curvas cujo eixo de ordenadas (o n.º de casos) é figurado em escala logarítmica, para melhor comparar países com populações muito diferentes. O eixo das abcissas é linear e reporta os dias. No mesmo sentido, as curvas são reduzidas a uma mesma origem (o dia em que se manifestou o 100.º caso). Linhas rectas que passam pela origem indicam as duplicações em 2, 3, 7 dias. A derivada da função logarítmica é uma recta.
Vou mostrar de novo a curva do FT, na qual sobrepus, por pontos, a situação portuguesa até ao 40.º dia (as pequenas estrelas vermelhas).
podemos ver que:
- Todas as curvas são reduzidas à mesma origem
- Cada país (universo de casos) tende a estabilizar no seu patamar.
- O bom comportamento dos países orientais (K. Sul, Japão, Singapura, Hong-Kong).
Como se posiciona Portugal neste feixe de curvas? Marcando a situação portuguesa por pontos, de 5 em 5 dias, podemos ver como o nosso crescimento foi regular, mas mesmo assim, significativo. Nota-se que o nosso patamar está a ser alcançado. Estando hoje em cerca de 25.000, pode vir a estabilizar nos 30.000 casos!
A taxa de óbitos por casos confirmados tem vindo a subir (estando hoje em 3,8%), pelo que o número total de óbitos pode ultrapassar os 1.000, no princípio de Maio.
Quanto ao receio de não haver resposta suficiente por parte do dispositivo do SNS, parece estar fora de causa, por a grande maioria dos infectados serem tratados em casa e graças à criteriosa gestão dos hospitalizados e aos internados em UCI.
Entretanto, as taxas média diárias de crescimento dos recuperados está a aumentar, tendo sido de 16% nos últimos 5 dias.
Como nos comparamos com outras situações?
A nível europeu a situação começa a estar controlada, embora com posições relativas muito distintas.
Por exemplo, quando nos compararmos com Espanha, a relação da população é de 1:4,5, dos infectados 1:11, e dos óbitos de 1:38... O confronto com a Bélgica, cuja população não é muito diferente da nossa, também revela o nosso bom comportamento.
Poderia ter sido melhor? Admito quer sim, se tivéssemos controlado as fronteiras mais cedo. Mesmo assim, Portugal está ser considerado um caso de sucesso.
Outra questão que se começa a levantar - Será que o êxito desta 1.ª vaga em Portugal, com tão poucos casos de infectados, pode ser um problema no futuro? É que, se o fenómeno reincidir ou perante novos surtos, o excesso de resguardo, pode não ter criado suficiente imunidade na população portuguesa.
Cautelas para o desconfinamento
Os mais jovens envolvem muito pouco risco. Porém, se infectados, podem ser assintomáticos e serem agentes de infecção dos mais vulneráveis.
Discute-se como conseguiremos alcançar a imunidade, parecendo que à população de maior risco não resta outra alternativa senão continuar a resguardar-se, até que apareça a eficaz vacina.
Ursula von der Leyen revelou que a Comissão Europeia vai pôr em marcha uma iniciativa para angariar 7,5 mil milhões de euros, que serão investidos na “prevenção, diagnóstico e tratamento” do coronavírus, estando, neste momento, a ser desenvolvidas mais de 100 potenciais vacinas, incluindo seis já na fase de ensaios clínicos.
A situação dos idosos acolhidos em lares tornou-se de elevadíssimo risco. As mortes de residentes em lares da terceira idade representam 40% dos óbitos em Portugal. A tendência é que esta percentagem possa subir ainda mais. Estes óbitos manifestam-se sobretudo no Norte (55%) e no Centro (32,4)%[1]. Isto pode obrigar a rever a forma com a assistência aos idosos é contratualizada em Portugal e a exigir mais adequada capacitação dos profissionais que neles trabalham. Há perto de 150 mil idosos residentes em lares em Portugal, o que justifica políticas concretas para esta densa realidade.
Notícias recentes, põem em causa a eficácia do protocolo de tratamento dos doentes COVID como se tratasse de pneumonia. A ventilação é considerada com crescentes reservas, depois de autópsias feitas em Itália àqueles que morreram, depois de terem sido submetidos a esse tratamento e, segundo parece, vrificar-se que morreram por microtromboses vasculares. Também se começa a conhecer o sucesso do tratamento com anticoagulantes.
Como vamos retomar a "nova normalidade"?
Os grandes temas de debate nas próximas duas semanas serão os relacionados com regras e precauções a tomar no período que se avizinha de retomo a alguma actividade económica e social.
São muitas questões que obrigam a muito discernimento e a uma aplicação faseada e tentativa. Listá-las não é fácil, por serem muito diversas e implicarem a conciliação entre direitos individuais e obrigações colectivas: cuidados sanitários, reabertura gradual do comércio e escolas, definir o que pode continuar a ser feito em regime de teletrabalho, estimular o turismo interno, precauções nos transportes, protecção individual, reabertura de actividades sociais e desportivas, culturais, etc.
A DGS enuncia para o período de desconfinamento, como orientação sanitária, três tipos de critérios: epidemiológicos, de capacidade de resposta hospitalar, de vigilância (testes e protecção).
Não me parece que valha a pena continuar a analisar a evolução das curvas. Mais importante é compreender o que pode ser feito para retomar a dinâmica económica. Portugal, com uma economia muito interdependente e aberta, está mais condicionado pelos fornecimentos de bens e serviços externos, que podem condicionar a nossa produção.
Tudo isto nos deve obrigar a reflectir se não devemos procurar garantir para futuro maior autonomia produtiva em determinados sectores, a começar pelo da produção de bens alimentares.
Talvez seja tema para uma próxima nota.
[1] "Público", 24.04.2020