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Caminhos de Santiago no Norte de Portugal: Estratégia e coordenação - precisam-se!

Caminhos de Santiago no Norte de Portugal: Estratégia e coordenação - precisam-se!

Artigo de opinnião de Ana Ladeiras, experta no sector do turismo

As estatísticas de monitorização dos Caminhos de Santiago e do seu impacto socioeconómico são cada vez mais surpreendentes nas mais diversas dimensões, levando muitos municípios do Norte de Portugal a apostar pelo desenvolvimento deste produto turístico transfronteiriço nos seus concelhos.

Entre essas dimensões destacam-se os mais recentes dados publicados pela Federación de Asociaciones del Camino de Santiago[1], no que se refere às receitas por ele geradas na região da Galiza. Estimam um gasto médio de 38€ por peregrino e por etapa, o que corresponderá a uma receita total de 100 milhões de euros, arrecadada durante 2016, dos quais mais de 11 milhões de euros terão origem nos diferentes caminhos portugueses.

Não menos relevante é o facto de, de acordo com a Oficina del Peregrino, durante 2017 (até 31 de julho), terem obtido a Compostela 1.504 peregrinos de nacionalidade portuguesa sendo que a região Norte de Portugal foi a origem 4.174 peregrinos que a obtiveram, revelando a importância deste produto turístico na atração de mercados externos.

 

Por outro lado, os Caminhos portugueses de Santiago foram as rotas escolhidas por cerca de 10 mil peregrinos que obtiveram a Compostela neste mesmo período.

Estas estatísticas são ainda mais relevadoras se tivermos em conta a inexistência de qualquer estratégia conjunta ou coordenação (tanto a nível nacional como a nível regional) para o desenvolvimento deste produto turístico: não existe nenhum organismo que valide e certifique a autenticidade histórica dos percursos, não existente nenhuma entidade responsável pelo seu desenvolvimento e promoção, não há qualquer regulamentação que determine de que forma se deve proceder à marcação dos diferentes percursos e variantes destas rotas de peregrinação, não se encontra definida (em termos de imagem, de cores ou pictogramas) a sinalética a adotar (sendo, por isso, possível, que cada caminho, cada município, cada freguesia estabeleça uma própria) ou sequer que a figura de albergue, enquanto unidade de alojamento, se encontre prevista na legislação atualmente em vigor.

De facto, o desenvolvimento, consolidação e comunicação dos caminhos portugueses de Santiago tem recaído na vontade e colaboração dos municípios por eles atravessados que, tomando a iniciativa, conjunta e coordenadamente, asseguram as intervenções e investimento necessário à dotação das condições necessárias à sua fruição.

Um caso ainda mais transcendente é o que representa o Caminho Português da Via da Prata que, incluído no mapa dos Caminhos de Santiago – Primeiro Itinerário Cultural Europeu do Conselho da Europa (datado de 1987), sem qualquer intervenção de acondicionamento e dotado apenas de uma infraestrutura de acolhimento aos peregrinos (o albergue de Quintanilha), registava já este ano (até 30 junho de 2017) uma afluência de, pelo menos, 92 peregrinos (número de peregrinos que pernoitaram naquele albergue).

A este respeito releva, ainda, indicar que tais números são atingidos graças à promoção realizada por entidades estrangeiras como a espanhola Fundação Ramos de Castro (entidade que também procedeu à primeira marcação deste caminho), a inglesa Confraternety of Saint James ou a amaricana American Pilgrims on the Camino.

Não obstante o empenhamento, cooperação e investimento realizado pelos municípios atravessados pelos Caminhos de Santiago no Norte de Portugal, essencial para que o Caminho Central seja, a seguir do Caminho Francês, o caminho mais procurado pelos peregrinos que rumam a Santiago, cada um dos percursos do Caminho de Santiago no Norte de Portugal é antes de mais, um conjunto de troços individuais, tantas vezes desenhados em função dos interesses de cada município (ou até de cada freguesia) bem como da vontade individual de investir e/ou manter/conservar o troço municipal; heterógenos em infraestruturas, marcação e conteúdos; e cuja promoção é de qualidade e intensidade diversa, em função do valor estratégico atribuído por cada um dos executivos municipais dessas áreas.

Acresce, ainda, que a pressão que os municípios têm efetuado (e bem) para o reconhecimento do valor acrescentado e do potencial de crescimento e rentabilidade deste produto turístico por parte das autoridades regionais e nacionais, apenas tem resultado na aprovação de candidaturas a fundos nacionais e comunitários desconexas entre si sendo que as entidades que as financiam desconhecem a existência das outras ou, conhecendo-as, não impõem quais parâmetros ou padrões que afiancem a eficácia e retorno do investimento que vão financiar.

O resultado será o aprofundar, ainda mais, das disparidades entre os diferentes caminhos (e suas variantes) tornando ainda mais premente uma ação global, de carácter estratégico e de longo prazo, supramunicipal, devidamente coordenada com a região da Galiza e que estabeleça regras de intervenção, homogeneizando a qualidade da experiência turística ao longo de cada caminho e nos vários caminhos.

A solução poderá passar pela criação de um organismo responsável pela dinamização dos caminhos em território português ou simplesmente por uma coordenação direta e conjunta por parte do Turismo de Portugal e do Ministério da Cultura. Passará, seguramente, pelo intercâmbio de conhecimento e coordenação com o Governo galego e o Xacobeo bem como pela adaptação, à realidade portuguesa, das suas boas práticas municipais e regionais.

 

[1] Revista "Peregrino", nº 171 y 172, Junio-Agosto 2017.