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A necessidade aguça o engenho

A necessidade aguça o engenho

Artigo de opinião de  Cristina Tenreiro, Vereadora da Educação, Desporto e Juventude. Municipio de Santa Maria da Feira

Vivemos sempre numa ponte entre o passado e o futuro. Embora o passado, as regras, as nossas práticas confortáveis e a experiência sejam habitualmente as referências quotidianas, acredito que devemos, olhar o presente como a nova oportunidade de preparar o futuro. Enfrentar desafios, inovar e transformar.

A situação pandémica causada pela COVID-19 obrigou-nos, em muitos aspetos, a antecipar o futuro. Muitos achavam não estar preparados, mas a necessidade, o sentido de comunidade e o serviço público levaram as nossas escolas e a respetiva comunidade a dar passos quase impensáveis há algumas semanas. Apesar do enorme impacto negativo, acredito que a condição atual levou o Ser Humano a desafiar-se ainda mais e a lutar para adaptar as suas ferramentas e metodologias à vida em confinamento. O online conquistou uma nova dimensão nas nossas vidas. Os pais e encarregados de educação passaram a ter um papel ainda mais vincado no acompanhamento dos estudos dos seus filhos e os professores ultrapassaram o estigma da tecnologia.

No prisma da educação, tivemos uma oportunidade rara de ser forçados a testar um novo caminho e repensar a educação atual (agora, a educação do passado). Para solucionar a emergência do confinamento e manter os jovens conectados à escola, aos docentes e aos conteúdos letivos, toda a comunidade se uniu na procura de soluções. Fomos compulsivamente ao extremo do ensino exclusivamente à distância, mas tivemos um ensaio sublime, cujos resultados provaram a capacidade de adaptação de todos e as possibilidades de reestruturação das metodologias de ensino e acompanhamento dos estudantes.

No entanto, creio que não deveremos apenas pensar online ou digital. O sentido de comunidade e as relações interpessoais são essenciais para o desenvolvimento das novas gerações. Ainda assim, creio ser o momento certo para debatermos a escola do futuro: envolver o Ministério da Educação com todos os agentes educativos, compreender vantagens e desvantagens, ajustar metodologias de ensino e preparar a escola que queremos para o futuro.

O ensino híbrido não é um filme de ficção científica. A aplicação de ferramentas tecnológicas para o acompanhamento dos estudantes e desenvolvimento de projetos diferenciados em complemento às aulas expositivas é uma realidade antiga no ensino superior. As escolas básicas e secundárias poderão, a partir da experiência da situação de emergência, reinventar-se e reaplicar a tecnologia num formato complementar às aulas presenciais? Fará, certamente, parte da nossa viagem do passado para o futuro.

Importa, ainda, referenciar as alterações sociais e laborais que esta crise irá arrastar. O trabalho remoto e os postos de trabalho virtuais serão uma realidade a enraizar gradualmente na sociedade, pelo que será essencial preparar as novas gerações para os desafios futuros. Reinventar a educação passará, também, pela compreensão das profissões do futuro, adaptando a oferta formativa para a nova realidade.

A transformação digital era já um desafio do nosso passado que sai reforçado pela crise de saúde pública, perspetivando o nosso futuro. Sejamos capazes de não perder a sociabilização e os nossos hábitos, mas enfrentemos o desafio da evolução de forma otimista.

Os novos estímulos à criatividade e a capacidade de adaptação são pilares fundamentais para as mudanças na cultura educativa. Criar condições no ensino para despertar novas sensibilidades nos alunos, o trabalho autónomo, novas noções de responsabilidade, novos métodos de pesquisa e planificação de tarefas irá potenciar uma evolução contínua. A revisão de metodologias de ensino, considerando a adaptação de currículos e autonomia de pesquisa, irá dotar os docentes de ferramentas de adaptabilidade ao perfil dos seus alunos e será certamente um desafio que importa abraçar, com vista à preparação de uma nova geração ativa para a mudança. Uma nova geração com foco na evolução, tecnologia e inovação.

Desejo que no futuro não regressemos ao passado. Que a tecnologia e ferramentas agora aplicadas possam representar um papel importante na revisão de metodologias de apoio ao ensino como o conhecemos até março. Que o futuro próximo nos proporcione a possibilidade de repensar, de forma estratégica, a escola do futuro. E que esse futuro seja de proximidade social, na escola com toda a comunidade presente (alunos, professores, auxiliares, encarregados de educação), embora tirando partido de toda a tecnologia já testada e adaptando-se à realidade de cada estabelecimento de ensino, de cada turma, de cada estudante, de cada encarregado de educação. Que o investimento tecnológico agora efetuado nos traga um retorno evolutivo para sociedade. Que a escola se transforme num desafio de ensino dinâmico, criativo e transformador.

O dinamismo do sistema educativo é o reflexo da dinâmica de um município. A aposta continuada na educação criativa espelha a evolução social, com repercussões a longo prazo na capacidade criativa e empreendedora de uma comunidade. As escolas de hoje são o catalisador do futuro da sociedade.