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A minha Europa

A minha Europa

Artigo de opinião de Luís Costa, jornalista, subdiretor da RTP Internacional

Despertei para o sonho de uma União Europeia ainda criança, no início dos anos 70, graças ao mecânico que cuidava da minha bicicleta. Raramente saía da sua oficina, onde me dirigia em busca de um ajuste na corrente, de uma pinga de óleo ou de calços para os travões, sem trazer uma pequena recordação – normalmente um autocolante que colava no quadro da velha bicicleta que fora do meu avô.

Um desses autocolantes era oval e suficientemente grande para ocultar os pontos de ferrugem que cobriam – como metásteses – o quadro enferrujado da velha bicicleta. Em letras enormes, uma simples frase: “Europa Unida”.

À medida que fui crescendo percebi que não era só o efeito estético daquela decalcomania que me encantava. O que me agradava mesmo era essa ideia de uma Europa Unida, como uma espécie de bálsamo ou de nova esperança para um país que eu, ainda criança, não compreendia bem – mas que percebia já ser pequeno, triste, cinzento e amordaçado, quanto mais não fosse porque tinha de fintar o carro-patrulha sempre que a polícia nos apanhava, a mim e aos meus colegas, a jogar à bola na rua. Porque no Portugal desse tempo, negro e fascista, era proibido jogar à bola na rua.

Mais tarde, acolhi com entusiasmo a ideia da “Europa connosco”, esse horizonte rasgado por Mário Soares que nos poderia tirar definitivamente do labirinto da saudade. Era a vontade de ser tão grande como os grandes, de pertencer aos “Estados Unidos da Europa”, de ver concretizada, enfim, a ideia utópica que o meu professor de Direito Romano – o divertido padre Sebastião Cruz, nos tempos da Universidade de Coimbra –, procurava justificar com a matriz histórica mais profunda da nossa ordem jurídica.

Com o passar dos anos fui perdendo a crença. Sempre que a Europa parecia avançar, afinal acabava por recuar logo depois. Mas não desisti de acreditar. Porque não podemos deixar de acreditar. Não há outro caminho. Não há mesmo.

O futuro da União Europeia é hoje uma incógnita. Uma enorme incógnita. As pulsões nacionalistas (tão evidentes em países essenciais à construção europeia como a França e a Alemanha) e mesmo independentistas (como sucede de modo dramático na Catalunha, afetando a integridade no Estado espanhol) auguram o pior. Gostava de ser otimista, mas “não está fácil”, como se diz no português do Brasil.

A União Europeia como entidade político-administrativa forte depende da força dos países que a integram. Só com Estados fortes e coesos teremos uma Europa igualmente forte, capaz de respeitar a soberania e a matriz histórico-cultural dos países.

Mas, para isso, é fundamental que os países da União Europeia, sobretudo aqueles que são menos coesos politicamente – desde logo porque agregam diversas nações – sejam capazes de fazer o mesmo. Isto é, que sejam capazes de encontrar um modelo político-administrativo e de organização do Estado que preserve a sua unidade, mas que simultaneamente respeite a autonomia das suas partes integrantes.

A União Europeia está ameaçada por todos os lados: vagas de imigração, nacionalismos, pulsões independentistas, terrorismo, falta de entendimento entre Estados, uma corte de políticos tecnocratas, estruturas ineficazes, e um pacto de estabilidade e crescimento – associado aos dilemas da moeda única – a precisar de profunda reformulação.

Uma coisa é certa: quando cuidamos apenas da árvore não tratamos da floresta. Apesar de todas as dificuldades, só no quadro da União Europeia poderemos assegurar o futuro da União Europeia. E, por essa via, o futuro dos países que dela fazem parte. De outro modo, a nossa “floresta” vai arder.