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A mãe de todas as crises

A mãe de todas as crises

Artigo de Opinião de Luis Alves, Diretor da Agência Nacional ERASMUS+ JA

O Eixo Atlântico sempre teve o hábito de suscitar debates prospectivos, assumindo-se como um marco referencial para essas reflexões. Em todo o tempo um exercício difícil, desta feita, no momento em que escrevo, é mesmo um convite para um olhar para lá do desconhecido.
Como será o dia seguinte aos dias que atravessamos, que não antecipamos, que não conseguimos prever o seu termo nem quantas vagas terá?
Este é um tempo de espanto, de assimilar, com dificuldade, uma realidade em mudança rápida, dinâmica e tão acintosa para com os nossos referenciais de normalidade que chega a desafiar os nossos sentidos. À janela, vemos um mundo que, como o conhecíamos, eclipsou-se, em jeito de vislumbre do apocalipse. Agarrados à velha televisão ou às redes sociais vemos estupefactos os números exponencialmente crescentes de vítimas. Petrificados vemos um dos serviços de saúde mais avançados do Mundo escolher os pacientes que receberão tratamentos e os que não terão oportunidade de sobreviver… E, no entanto, a procura de dar resposta à interrogação sobre o dia seguinte é, desde já, um imperativo.
Se a nossa primeira e única decente prioridade só pode ser, neste momento, conter os contágios, evitar o colapso dos sistemas de saúde e salvar vidas, seria irresponsável não encarar uma outra crise, económica e social, que, invariavelmente, decorrerá desta suspensão temporária da nossa vida pública.
O vírus é global e agressivo. Os seus potenciais efeitos económicos são igualmente generalizados e assustadoramente ameaçadores.
Esta vai ser, assim, uma prova maior à resiliência das nossas democracias, ao nosso sentido de solidariedade e empatia, à nossa consciência de pertença a uma comunidade, à nossa coragem colectiva e (mais) um exame ao próprio projecto Europeu.
A Europa tem enfrentado uma década de crises sucessivas e permanentes. Desde o Brexit, à crise financeira, à decorrente crise das dívidas soberanas e à quase ruptura do Euro, à recessão económica e ao retrocesso social, à crise dos refugiados ou ao ressurgimento de velhas manifestações de nacionalismos, xenofobia, populismo e egoísmos vários. Estas crises não deram, no entanto, fundamento à ideia de inutilidade da União Europeia. A Europa resistiu. Estas crises foram até, de alguma forma, mesmo quando reveladoras das suas insuficiências, a evidência da transnacionalização dos nossos problemas e que a UE é mesmo a melhor das opções para lhes dar resposta.

Esta é, no entanto, uma crise com contornos disruptivos e imprevisíveis, que caminha por terrenos desconhecidos, que não compara com nenhuma outra vivida. Nem com a crise de 2008, que com origem no sistema financeiro se propagou para o resto da economia e resultou em 2011 numa crise das dívidas soberanas; nem com a gripe espanhola de 1918/19 – que de espanhola só tem o nome - que não se pode constituir como referência num Mundo tão diferente. Esta será uma crise global que, resultado de uma paragem forçada da actividade económica mundial, arrastará todos os países e sectores em simultâneo numa recessão severa de dimensões ciclópicas e contornos propiciadores da desestruturação económica e social.
Pagaremos, por isso, muito caro pela inacção, lentidão ou falta de solidariedade interna. O custo da Europa falhar é insuportável e teria como resultado um catastrófico colapso social.
As respostas próprias não serão solução para nenhum dos, mais ou menos ricos, países europeus. Não chegará até uma boa coordenação europeia de respostas nacionais. É mesmo imperiosa uma convergência que sustente uma iniciativa verdadeiramente europeia.
Dependemos uns dos outros para enfrentarmos esta crise e, desta feita, não será possível lançar o anátema da culpa sobre alguns. Esta é uma pandemia global e não há culpas a expiar.
Por isso, a compra “ilimitada” de dívida, desta feita anunciada desde o “primeiro” momento – se o compararmos com os anos em que se arrastou igual decisão na crise de dívidas soberanas – é muito importante, mas não bastará. A suspensão decretada de um quase divino pacto de estabilidade – que anos de confrontação política não conseguiu – é imprescindível e muito significativo, mas não chegará. O apelo e incentivo aos investimentos sem limite dos estados, indispensável ao resgate e à salvação de todos, é imperativo, mas não servirá se o plano for deixar cada um à sua sorte com as consequências dessas dívidas. Nenhum país europeu conseguirá sair do risco da espiral recessiva sem que os outros países europeus o consigam. A solidariedade não é, pois, neste contexto, nem um altruísmo nem uma opção, é uma necessidade imperiosa. Esta é, pois, a altura da Política e a Política tem de estar à altura do momento. Isso exigirá uma resposta pronta, decidida, contundente, sem a qual a crise, tal como o contágio vírico, será exponencial. Exigirá, não só a mutualização da dívida, que nos resgatará a todos e que a todos beneficiará, como também a existência de um plano económico europeu integrado que seja capaz de superar dogmas até agora dominantes. Não se trata, desta vez, de salvar a banca, trata-se de nos salvar a todos. Só assim, com a lucidez da ambição de, depois do nosso afastamento, nos abraçarmos com mais força, poderemos enfrentar e vencer a mãe de todas as crises.