Encerramento de Fronteiras – Uma temporal inevitabilidade
Artigo de opinião de Maria Cerqueira, jornalista da RTP , sobre as consequências da crise do coronavírus
Vivemos dias angustiantes. Tempos de guerra global contra um inimigo invisível, que surge sorrateiro e vitimiza os mais frágeis.
São tempos que exigem lideranças esclarecidas e uma atitude responsável e determinada por parte de todos.
E de equilíbrio.
Precisamos de nos proteger, precisamos de cuidar, mas é necessário também que os elementos básicos de sobrevivência não faltem aos cidadãos. Os profissionais de saúde, combatentes de primeira linha, devidamente protegidos, têm a sua difícil missão a cumprir. Nós Jornalistas temos de informar. A segurança aos cidadãos tem de ser garantida, assim como os serviços diversos que sustentam um estado democrático.
Contudo, é determinante que os agricultores continuem a produzir, que os pescadores continuem a sair para o mar, que as empresas de transportes continuem a cumprir a sua função de fazer entrar no país os produtos essenciais e a levar o que temos para exportar.
Para que o país continue a funcionar é fundamental que as unidades produtivas, nomeadamente aquelas que podem adaptar a sua capacidade às necessidades do momento, continuem a laborar.
O teletrabalho tem de ser intensificado, minimizando assim as carências lutando pelo cumprimento de objetivos e manutenção dos postos de trabalho.
A educação, com todas as alterações a que o momento obriga, não pode parar. Étempo de boa aplicação das tecnologias de informação e comunicação, não só na luta pelo esclarecimento aos cidadãos e combate ao boato, mas também na produtividade laboral.
É fundamental uma devida coordenação entre as diversas entidades e hierarquias dentro de cada estado, mas também uma atitude concertada ao nível de toda a Comunidade Europeia. Cada autarca deve ser o primeiro responsável pela proteção civil no seu território. O contacto com todos os responsáveis dos serviços instalados no seu território no sentido de coordenar esforços e recursos no combate à pandemia é determinante. Deve ser dado especial ênfase às instituições particulares de solidariedade social, cujo quadro dirigente, normalmente constituído por gente boa,nem sempre estão preparados para assumir as melhores atitudes no momento adequado e num universo em que os utentes são pessoas de mais idade, logo mais frágeis e suscetíveis a menor resistência ao vírus. O conhecimento do quadro real de cada uma destas instituições é uma obrigação. Permite o levantamento de carências e a possibilidade de as capacitar para a sua resolução. Tenho como garantido que a CIM Alto Minho saberá responder às exigências do momento.
A Covid 19, que obriga à consciencialização e responsabilização de todos, é inimigo da sociabilização e da democracia. Temos de ter o necessário recolhimento se não estamos no desempenho de funções estritamente necessárias e fundamentais.
Uma das batalhas desta guerra é a sensibilização dos cidadãos para a sua responsabilidade com a comunidade. Daí, a necessidade de cada estado conhecer o fluxo existente nas fronteiras, a sua razão e simultaneamente condicionar a sua mobilidade quando não existe a certeza de que os mesmos não são portadores do novo coronavírus.
Entre Portugal e Espanha existem sessenta e quatro pontos de comunicação. Com as medidas tomadas foram a maior parte deles encerrados, restando-nos nove fronteirascondicionadas.
Há muitos anos que as fronteiras entre os dois países só encerraram por razões de exceção e pontuais (lembro a visita do Papa a Portugal ou do Presidente dos Estados Unidos da América).
No Minho encerraram Goián – Vila Nova de Cerveira, Monção – Salvaterra do Minho, Arbo – Melgaço, Ponte Barxas – São Gregório, Ponte Barxas - Azureira em Castro Laboreiro, Entrimo – Castro Laboreiro, Aceredo – Lindoso e Torneiro – Portela do Homem.
No Alto Minho há grande preocupação com a chegada de muitos portugueses que estão a sair de outros países europeus mais atingidos, até à data, pelo novo coronavírus do que Portugal. Teme-se pelo não respeito da quarentena obrigatória que as autoridades portuguesas impuseram, devido à vontade de contactar com os familiares. Esta é uma fragilidade a ter em consideração.
Durante muitos anos, nesta quadra, preparava-me para as tradicionais reportagens da “invasão” de milhares de espanhóis que escolhiam Portugal para passar a Semana Santa.
É difícil imaginar Vila Nova de Cerveira e Valença sem os amigos galegos. As duas margens do Rio Minho estão unidas e coesas.
As crianças deGoián e Tomiño vão à creche de Cerveira. Juntam-se todos na piscina, nos cafés, restaurantes e feiras.
O mesmo acontece entre Valença e Tui. Se nestes dois concelhos os portugueses atravessam o Minho para irem às compras ou para abastecer combustível, o contrário acontece entre Monção e Salvaterra. Aqui são os vizinhos galegos que compram nos supermercados do lado de cá do rio.
Trabalhadores e empresários que há muito aboliram a fronteira em que situação ficarão agora? Existem muitas empresas criadas por espanhóis nas Zonas Industriais do Alto Minho, sendo a Zona Industrial de Vila Nova de Cerveira um dos melhores exemplos.E as inúmeras famílias que vivem de um lado e trabalham do outro? Como irá ficar tudo isto?
Que marcas vai deixar este tsunami nas relações entre o Norte de Portugal e a Galiza?
São problemas complicados que solucionaremos, mas agora o fundamental é salvar vidas.
É admirável o empenho e a dedicação de todos os profissionais do Serviço Nacional de Saúde.
Os tempos difíceis proporcionam sempre exemplos de determinação, resiliência e solidariedade.
Esteve bem o Presidente da Câmara Municipal de Braga quando encerrou todo o comércio não essencial, após o conhecimento dos primeiros casos no concelho; esteve bem o Reitor da Universidade do Minho ao suspender a atividade letiva logo que foi conhecida a infeção de um aluno; louvável a resistência e persistência de muitos, entre os quais sublinho o grupo Sonix, que suspendeu toda a sua normal produção têxtil para fabricar equipamentos destinados aos profissionais de saúde.
Na cultura destaco dois exemplos positivos, no Distrito de Viana do Castelo. A Companhia de Teatro do Noroeste do Centro Dramático de Viana e as Comédias do Minho que passaram a transmitir as suas produções pela via digital.
Estes dias também nos levam a desejar uma comunicação social cada vez mais forte, isenta e séria. É em crises como esta que lhe damos maior valor e que vemos como as denominadas “FakeNews” são perigosas. Sente-se de forma clara o papel central de uma informação esclarecedora. Quando tememos pela nossa saúde e dos nossos familiares, sentimos como é importante a credibilidade e fiabilidade da informação que recebemos.